Os Romancistas da EB José Régio

28-05-2012 11:19

Podemos não ser muito conhecidos nem reconhecidos. Mas temos talento. Lançado o desafio aos alunos de turmas de 8º ano, Helena Quina e Teresa Ramos (ambas do 8º C) revelaram-se excelentes prosadoras. Quem sabe não possam vir a escrever o seu próprio romance? E o desafio era o de umas poucas sequências narrativas que deveriam ser preenchidas com pormenores, descrições, caracterizações, enfim tudo aquilo que perfaz a linguagem do romance. E fizeram-no a partir de um romance que desconhecem: “A Ilha de Sukkwan” de David Vann. Eis o resultado:

A Ilha de Sukkwan

Roy era um rapaz de 13 anos que vivia com os pais em New York City.

Por razões que só os adultos entendem, os pais separaram-se. Roy encarou aquilo como uma tragédia mas percebeu que tinha de se habituar e viver com a situação que os pais criaram.

Admitiu que era difícil para ele estar de bem com os dois, quando o entendimento entre eles não era normal.

Em pleno verão, o pai decidiu fazer uma viagem, com a finalidade de o distrair e dar-lhe alguma alegria.

Escolheu a ilha de Sukkwan, no Alasca, embora um pouco perigosa mas que deixa qualquer pessoa no seu esplendor, encanto e prazer! A flora e a fauna não se comparavam a mais nenhuma ilha até então conhecida!

A viagem tinha se ser feita por mar! Foram levados de hidroavião, onde ficaram na ilha com alguns víveres para se alimentarem.

O pai comprou uma cabana, onde era suposto viverem. Preveniram-se, levando comida que chegasse para algumas semanas.

A Ilha era deserta pelo que tinham que viver completamente isolados.

Roy pensou que o pai queria estar com ele, porque ele vivia só com a mãe, e o pai, sentindo que não era um pai presente, quis disfrutar da companhia do filho para o poder compensar.

Fizeram um longo passeio de reconhecimento do local onde iriam viver algum tempo.

Tinham tarefas a cumprir: juntar lenha para aquecimento e para cozinhar os alimentos, serviços domésticos, a que Roy não estava habituado!

A cabana era agora a sua casa onde iriam viver, não sabiam até quando.

Roy gostava de ler e esquecera-se de levar alguns livros. Tinha que imaginar outra distração para ocupar os tempos livres.

O pai contava-lhe acontecimentos que ele tinha vivido durante os anos em que deixou de viver em comum com ele e com a mãe.

Os dias passavam e a pasmaceira deu lugar a outras ocupações!

Para além das tarefas domésticas, Roy ocupava o seu tempo a observar a beleza e o esplendor daquela ilha: qualquer som, qualquer movimento o fascinava.

Observava toda a vida animal existente e explorava todos os detalhes, cada folha, cada ramo e cada pétala que o rodeava. Acabou por fazer um diário de campo onde, com todos os pormenores referia as plantas medicinais para culinária, de cheiro e venenosas; referiu alguns frutos e tudo sobre os animais daquela ilha, que observara ao longo do tempo.

Tanta sabedoria, interesse e dedicação por parte daquele rapaz, algo que no futuro poderia mudar o rumo da sua vida por completo.

Enquanto o pai tentava arranjar algum alimento, Roy ia em busca de algumas agulhas de pinheiro para fazer uma espécie de chá de que ouvia falar aos antigos.

Tirava o pelo a algumas carcaças de cervos ou alces que encontrara e fazia belas mantas e adornos para se aquecer, que aprendera a fazer ao longo do tempo.

Esculpia objetos daquela madeira que sobrava e fervia algum gelo para beber com o pai.

Por vezes o pai chegava à cabana com pequenas lebres-do-ártico ou com aves que conseguira caçar. Após a refeição, os dois aproveitavam as peles dos pequenos animais. Noutras ocasiões Roy e o pai apreciavam a Aurora Boreal nas noites em que esta se fazia aparecer, juntamente com os uivos e os sussurros da noite cerrada. Apreciavam a lua que de todas as luas era a mais deslumbrante. Pena que aquele espetáculo não pudesse ser apreciado de New York City...

Apreciavam o céu estrelado e o murmúrio das corujas, coisas que não podem ser apreciadas em meros programas de televisão e sentidas, mas ensinaram ao pequeno Roy sobre como sobreviver em sítios isolados e não só.

Cada dia, cada madrugada, estavam -30ºC no Alasca e nem uma lebre se via a correr sobre a neve branquinha e resplandecente naquele dia de Verão.

Naquela ilha isolada nada se ouvia e nada se sentia na brisa fresca. O pai tratou de ir à lenha e Roy resolveu ir explorar a parte da ilha que ainda não havia observado.

Rompeu pelo mato, pela tundra, pela floresta de pinheiros selvagens, sentiu o cheiro do musgo e ouviu o segredar dos lobos. Resolveu sentar-se num enorme pedregulho. Ouviu um barulho vindo da floresta dos pinheiros, um remexer enorme nos arbustos e nas agulhas de pinheiro. Permaneceu imóvel durante meros segundos, sem mover um fio de cabelo. Olhou para trás. Ao aperceber-se daquele cenário, Roy voltou para a cabana onde provavelmente estava o seu pai com alguns alimentos e lenha. Foi todo o caminho cismando sobre aquele acontecimento. Pensou que poderia ser um urso polar erguido sobre as duas patas traseiras mas também pensou que poderia ser uma miragem, uma miragem da sua mãe, pois a saudade leva a níveis intolerantes na nossa vida...

Por fim, o pai de Roy chegou à cabana com alguma lenha, com três lebres e um pássaro. Roy apressou-se a ajudá-lo.

Após a refeição, Roy dirigiu-se para a sua cama e esculpiu alguns objetos em madeira sobre o que vira à tarde.

Chegou a aurora e Roy adormeceu sobre o seu trabalho. Logo que se viu livre das suas obrigações domésticas, voltou àquele lugar, que o deixara tão intrigado.

Decidiu levar uma corda e uma picareta e subiu ao mais alto dos pinheiros, instalando-se no ramo mais favorável.

Helena Quina, 8ºC

 

Roy tinha 13 anos e era um rapaz muito divertido. Como todos os anos, Roy e os seus amigos já haviam começado a fazer planos para as suas férias.

Mas apesar do rapaz sempre sorridente e brincalhão, Roy escondia a sua grande mágoa por ver os seus pais divorciados e por já mal trocarem palavras entre eles. Ele não gostava de ver a sua família separada e pouco unida. Mas ao contrário disso, ele tornou-se um rapaz extrovertido e um aluno exemplar, o que havia prometido depois dos pais se separarem:

- Por eles os dois, irei-me esforçar e dedicar em tudo o que faça.

As férias já a meio e muitos planos já feitos. Mas de um, Roy não esperava... A visita inesperada do seu pai.

Roy perplexo e incrédulo, não queria acreditar no que estava a ver. O seu pai, um homem de negócios, trazia pendurado das suas mãos dois pequenos papéis, que mais tarde iria a perceber que se tratavam de bilhetes de avião.

Mas teria Roy de deixar os seus amigos e tudo o que cultivara para trás? E a sua mãe? Iria ela ficar ali sozinha...

Por um lado, Roy não queria deixar tudo o que tinha para trás, mas por outro, ele também queria estar com o seu pai e receber alguma da sua educação. Pois ele não se lembrava propriamente de quando vivia com ele.

Roy precisava de pensar e saber o que havia de fazer, mas tempo era o que ele não tinha, a decisão tinha de ser imediata.

E quando Roy deu por si, já estava no hidroavião, na viajem que seria a da sua vida, para um lugar frio e que cujo único meio de acesso era por água.

O rapaz ouviu uma voz que dizia:

- Bem-Vindos ao Alasca, estão -40°C no ar e a temperatura ao aterrar-mos será de -25°C.

Ao aterrarem naquela ilha, Roy depressa se apercebeu para o que havia de estar guardado. Juntamente com algumas roupas quentes, só aterrou também com eles, alguns víveres que só lhe chegariam para algumas semanas.

Assim que chegaram, Roy sentiu necessidade de visitar aquele local onde iria passar a viver por algum tempo. Mas antes disso, o pai queria-lhe mostrar a cabana onde iriam passar a viver. Era tudo diferente do que ele estava habituado, tratava-se de um sítio calmo, até demais para o que Roy estava habituado. Era também um local que rápido Roy percebeu que teria de ser tudo feito por eles, pois ali não existiam lojas e muito menos qualquer tipo de centros sociais.

Depois de conhecida a cabana, que iria ser dali para a frente o seu único porto de abrigo, o pai dissera a Roy que iriam fazer um passeio de reconhecimento pela ilha de Sukkwan.

Roy, a cada passo que dava, sentia-se mais fascinado, apesar das baixas temperaturas que o gelavam até com as suas roupas de Inverno, ainda que fosse um frio de que depressa se esquecia com o entusiasmo e o calor sentimental que resplandecia naquele local branco. Mas tratava-se de um branco especial, um branco de história...

Os olhos de Roy brilhavam contrastando com a neve daquele lugar. O pai depressa se apercebeu que Roy se havia apaixonado pela ilha de Sukkwan. Pelo que o pai decidiu que era o melhor momento para intervir:

- Roy, eu sei que te está a custar teres deixado tudo para trás. Mas olha à tua volta: estamos num sítio mágico. E gostava que associasses este sítio à nossa relação. Eu sei que tenho sito um pai ausente, mas estavas sempre no meu coração. Todos os dias rezava por ti e pedia que tudo te corresse bem.

Escolhi este sítio para estar uns tempos contigo, mas, apesar de tudo, elegi o Alasca porque este sítio me faz lembrar a relação existente entre nós: Distante mas impossível de esquecer cada pequena memória.

Roy estava confuso, não sabia se tinha tomado a atitude certa. Mas a última coisa que ele queria fazer era desiludir o seu pai. Então respondeu-lhe:

- Sabes, pai... – Roy não sabia o que dizer. Mas lá adiantou:

- Pai, eu não te culpo por nada... Não te odeio por teres estado distante... Só não aceitei muito bem a vossa separação. Mas tive de concordar, porque era essa a vossa vontade. E eu sei que estás sempre a pensar em mim, como eu penso em ti. Acima de tudo, tu és meu pai e és a minha inspiração em muitos momentos.

O pai estava comovido com aquelas palavras. Se o seu filho já era para si o seu maior orgulho, agora passou a olhar para ele como um corpo de criança e uma cabeça de adulto.

O pai queria ensinar-lhe muitas das coisas que a vida lhe havia ensinado, também, ao que só lhe disse:

- Meu querido filho, nunca desistas dos teus sonhos e pensa que, se algo de mau acontecer, outra coisa muito boa está para vir.

Roy não entendeu a mensagem que o pai lhe queria transmitir. Teria aquela frase algum significado? Mas depressa Roy esqueceu a voz da experiência e continuou a caminhar até à cabana, agora a sua casa.

A visita de reconhecimento estava feita. E depois de uma longa viajem, eram horas de dormir.

A primeira noite passou. Roy foi o primeiro a acordar com o fascínio de estar naquela ilha maravilhosa. Entretanto o seu pai também acordara e foram juntos preparar o pequeno-almoço.

O pai já havia feito planos para aquele dia que iria ser o primeiro de muitos.

- Roy – disse o pai – hoje vamos apanhar lenha para nos aquecermos durante estas noites frias.

Roy ficou um pouco admirado, pois, ele não estava habituado a fazer aquele tipo de tarefas. A sua mãe era a encarregue de manter a casa limpa e arrumada... E, enquanto a mãe fazia essas tarefas, Roy ia ao supermercado para as compras da semana.

Foi então que o pai percebeu que Roy estava a pensar no que ele lhe dissera.

- Sabes, Roy, a partir de agora vamos fazer tudo juntos, o que implica que aprendas a fazer muitas das tarefas domésticas. – Disse o pai.

Roy não achou aquela a melhor ideia do mundo, mas encarou-a como um desafio. Pois também sabia que mais tarde lhe iriam ser úteis aquelas noções-base.

Depois de tomarem o pequeno-almoço, partiram em busca de lenha.

E assim se passaram 10 meses, entre sacrifícios para se manterem quentes, em busca de alimento. Roy sempre a aprender coisas novas e acima de tudo, ambos a funcionarem como verdadeiros pai e filho.

Mas algo estava para acontecer...

Roy era um rapaz efusivo e impaciente, algo começava a fervilhar dentro dele.

O pai começava a sentir o seu filho um pouco distante: o seu corpo estava ali, mas a sua mente andava a vaguear por esses caminhos fora. Roy afastava-se da cabana e ali passava muito do seu tempo, sentado numa rocha a olhar em seu redor.

Ele já não era o mesmo aos olhos do pai, mas para ele, tudo lhe parecia normal.

O pai, já preocupado e quase desesperado por ver o filho assim, saiu da cabana e caminhou até ao local onde, há já um mês, Roy passara muito tempo dos seus dias.

O pai já avistava Roy ao longe. À medida que se aproximava começava a sentir um nó no estômago.

- Filho!- Chamou-o o pai com receio.

- Sai, não quero falar contigo. – Respondeu Roy com a voz a tremer.

-Mas, Roy, eu só quero saber o que se passa, tu andas estranho. Sinto que este Roy não é o meu filho. Não é o rapaz com quem passei dias fascinantes e que me surpreendeu bastante.

Roy começou a chorar.

-Filho, o que quer se passe, não o tens de passar sozinho. Eu estou aqui para te apoiar.

-Pai, desculpa. – Lamentou-se Roy.

-Mas afinal o que se passa? O que é que aconteceu para ficares assim? – Perguntou o pai, preocupado.

-Eu errei contigo, errei com todos os que amo. Desculpa pai, eu só não queria ser uma desilusão para ti.

-Estás a falar da viagem, certo? – Perguntou o pai. Que de seguida engoliu em seco para travar as lágrimas.

-Eu não te queria mentir, nem muito menos desiludir. Eu vi a alegria nos teus olhos por poderes passar algum tempo comigo, via o teu empenho para me ensinares tudo o que sabias e acima de tudo sentia todo o amor que tinhas para me dar. E eu consegui estragar isso tudo. E pôr-te a pensar se a culpa seria tua.

-Filho, não te culpes por nada. Tu não és uma desilusão. A pessoa que conseguiu desiludir a sua família... Fui eu.

Naquele momento caloroso de tensão, os sentimentos estavam prestes a ser expostos...

-O que queres dizer com isso?- Perguntou Roy um pouco confuso.

Mas havia começado a escurecer e o pai encaminhou Roy até casa.

Mais uns dias se passaram e a pergunta ficou suspensa no ar. Mas Roy era incapaz de se esquecer do que o pai lhe dissera.

Então, certo dia, enquanto apanhavam lenha, Roy voltou a tocar no assunto:

-Pai, o que fizeste de errado para te sentires uma desilusão?

-Sabes, filho. Todas as pessoas deviam fazer aquilo que eu não fiz. Agarrar com todas as forças aqueles que mais amamos.

-Não estou a perceber. O que queres dizer com isso?

-Não te devia contar, mas tu já estás crescido. E mais tarde ou mais cedo irias acabar por saber... Como tu sabes, eu viajo muito por esse mundo fora. E numa dessas viagens meti-me no jogo. Primeiro levei aquilo na brincadeira. Só para experimentar, como dizia eu naquela altura. Mas foi uma vez e outra, até que, sem me dar conta, já estava viciado e acabei por perder tudo o que tinha naquele casino. E como se não bastasse já ter perdido todo o dinheiro que tinha, acabei por entrar em depressão e abandonei a tua mãe. A minha vida estava do avesso, não queria acreditar no que estava a acontecer. Mas eu e a tua mãe acabámos por fazer um pacto. Como tu ainda eras pequenito, não nos iriamos separar, pois não queríamos que crescesses sem um de nós. Mas os anos passaram e tu cresceste. E as discussões continuaram e, como já estavas criado, decidimos que já estava na altura de nos separarmos. Na altura aceitei, mas mais tarde percebi que tinha perdido metade de mim.

Roy estava incrédulo com o que acabara de ouvir. Era muita informação para um miúdo de 13 anos. Mas ele esqueceu o passado do pai e disse-lhe:

-Pai, nada é impossível. Por isso, luta por aquilo que sonhas.

O pai de imediato encheu-se de coragem e pensou para si mesmo:

-Como é que um adolescente pode ter assim tanto otimismo e conseguir encorajar-me desta forma?

E assim passou o resto do tempo naquela ilha. Muito sentimento e emoção ali ficaram, mágoas e alegrias.

Já no hidroavião, a caminho de casa, pai e filho estavam pensativos. Roy com esperança de voltar a ver os seus pais juntos e o pai com força e garra para reconquistar aquela que era a mulher da sua vida.

 

Teresa Ramos, 8º C