Declaração - Prof. Gonçalo Pacheco

13-07-2012 09:53
Caros e caras colegas e amigos
 
Sendo membro do Conselho Geral, não podia deixar de me pronunciar sobre o que se está a passar nas escolas do nosso país.
Assim, e como não tenho outros poderes, fiz a declaração que se segue, para que conste que não me calei perante o sucedido.
 
 

Declaração

 

            Gostaria de começar esta declaração deixando uma palavra de solidariedade para todos os professores do Agrupamento que se encontram numa situação dramática das suas carreiras profissionais, algumas com mais de uma ou duas dezenas de anos, em que de um momento para o outro lhes foi dito que são dispensáveis e que, por via de um conjunto de decisões inqualificáveis, vêem a sua vida profissional e pessoal virada do avesso.

            Talvez esta medida não tenha grandes efeitos práticos no próximo ano lectivo, porque esta é uma situação comum a todas as escolas e, como tal, não deverá existir grande mobilidade. Mas não podemos deixar de nos inquietar sobre as consequências desta medida para os próximos anos lectivos.

            E o que levou a esta situação? Uma concepção ideológica que desvaloriza a escola pública, transformando-a numa cadeia de produção à velha maneira “taylorista”, em série, onde o tão apregoado rigor e exigência, preconizados pela tutela, esbarram nas suas próprias medidas.

            Como se pode defender as respostas e os percursos alternativos e se impõe um mínimo de 20 alunos para abrir um Curso de Educação e Formação. Resultado: este será o ano em que em Portalegre, tal como em muitos outros locais, não existirão respostas para os alunos que têm demonstrado, no seu percurso, mais dificuldades e uma vocação para um ensino mais prático. A consequência será o aumentar das desigualdades, funcionando a escola como um factor de promoção de assimetrias e de insucesso.

            Como se pode defender que não há uma relação directa entre o número de alunos dentro da sala de aula e o sucesso obtido por estes? Acaso quem defende esta visão já alguma vez deu aulas? Têm, por acaso, noção da forma como se processa a aprendizagem em grupos etários de 10 ou 13 anos?

            Esta medida, por muitas justificações em que a embrulhem, será a marca de água desta gestão que chegou com a promessa do rigor, da exigência e da seriedade.

            Mas será que é de seriedade que falamos quando olhamos para a forma como o próximo ano lectivo está a ser preparado?

            Será que é de rigor que se trata quando se dá a indicação às direcções das escolas e agrupamentos para, em caso de dúvida, se enviar para DACL todo e qualquer professor e depois logo se vê? Será que é sério dizer a um professor que, de repente, se tornou descartável?

            Ou que critérios de exigência estão por detrás da obrigatoriedade de os alunos com Necessidades Educativas Especiais, apesar de terem ritmos e percursos de aprendizagem próprios, terem que fazer os exames iguais aos seus colegas?

            Penso que nunca assisti, em mais de 20 anos de carreira, a um ataque tão violento à escola, com a degradação clara das condições de trabalho, com a proletarização do ensino, com a transformação dos professores que restam em tarefeiros, sempre com o argumento da contenção orçamental, que tudo encobre e justifica.

            Penso que os objectivos são óbvios, pois não nos chegam notícias das mesmas dificuldades no ensino privado.

            Uma das grandes conquistas dos últimos anos foi a chegada à escola de todos, cabendo a esta encontrar para cada um a melhor resposta. É a isto que se chamou uma Escola inclusiva, uma escola de todos e para todos, promovendo a educação para e pela diferença, dando a cada um dos nossos alunos as ferramentas mais adequadas e direccionadas às suas características.

            É tudo isto que hoje está em causa e que deve ser denunciado.

 

O membro do Conselho Geral

(Gonçalo Pacheco)