As mãos de Abraão Zacut de Luís de Sttau Monteiro

21-01-2015 07:38
As mãos de Abraão Zacut, de Luís de Sttau Monteiro, é uma peça sobre o Holocausto judeu, mas sem se confinar à grande tragédia do século XX. O que nela assume algo de original é o permanente alerta para que devemos estar despertos. Se pudéssemos sintetizar esse estado vigilante para que somos convocados de modo a que nada se repita e que, por passividade, não deixássemos instalar-se
uma atmosfera propícia ao horror, podíamos transcrever duas falas
da obra, as de Abraão Zacut e David Levi, porventura as personagens que simbolizam aqueles que não se resignam e a consciência
dos homens:
“A tua Mãe chamava-se mulher e o teu pai chamava-se homem – essa é que é a tua raça – e sempre que tiveres outra, és um filho
da mãe! Da tua raça são todos os homens e sempre que um homem for perseguido pelo que é ou pelo que não é, pelo que pensa ou pelo que não pensa, a tua raça está a ser perseguida.”
“Por pensarmos como tu é que transformámos a terra num campo de concentração, onde ninguém escapa à fogueira. Há quem conte com Deus, Susana, e há quem conte com os outros, mas para podermos andar de mãos dadas, temos de contar com as nossas próprias mãos e só com as nossas próprias mãos! As grades, Susana, foram as nossas mãos que as fizeram… e só as nossas mãos poderão destruí-las.”
Esta é também uma obra sobre a importância da transmissão
de valores essenciais. Abraão Zacut permanece na consciência
e transmite essa qualidade a David Levi que, por sua vez, inculca em Samuel Goldenstein a necessidade de permanecer vigilante. O escritor Ralph Ellison escreveu um dia: “Se os homens se mantiverem atentos e firmes, não haverá mais ditaduras.”
É necessário não deixar o mal entrar na invisibilidade.